O cara que subiu num prédio de 30 metros no meio do Allianz Parque voltou com um violão. É isso. Depois do fogo todo de Super, Jão sumiu por mais de um ano e reapareceu com o disco mais quieto que já fez.
E tem motivo. O pai dele, Carlos Alberto Balbino, morreu em junho de 2025, aos 61 anos, bem no meio do hiato. Ele mesmo descreveu o dia melhor do que qualquer um: “Foi em um dia idiota, uma terça-feira, meio-dia, de sol. Nada incomum, nenhum sinal, nenhum aviso. Nem o café estava amargo.” Memórias Póstumas é o que veio depois disso. São 14 faixas, 51 minutos, zero feat e zero single de aquecimento. Ele produziu tudo, dividindo com Zebu na maior parte, e escreveu 13 das 14 músicas sozinho ou com Pedro Tófani.
A real é que ninguém estava preparado pro tamanho da volta. O anúncio derrubou o site dele. Os 11 mil ingressos gratuitos da audição sumiram em 39 segundos. E no domingo (26), às 17h, o Vale do Anhangabaú virou o ponto de encontro de umas 15 mil pessoas pra ouvir um álbum que só ia sair quatro horas depois, às 21h. No meio de São Paulo. De graça. Pra ouvir, não pra ver show.
E aí veio a parte que ninguém esperava. Jão não subiu no palco pra performar, subiu pra falar. Chorou, contou que o último ano foi estranho e difícil, e admitiu que perdeu um pouco a perspectiva sobre a música e o interesse pela própria carreira. Um cara que lotou estádio dois anos atrás dizendo, no microfone, pra 15 mil pessoas, que quase largou tudo. No fim, distribuiu flores pra galera, e teve gente levando pedaço da decoração pra casa como lembrança. Quem estava lá ouviu o disco antes de saber que ia sobreviver a ele. Vamos por partes.
Catedral abre encarando a morte sem enfeite nenhum. É a que mais aparece em primeiro lugar nos rankings que os fãs estão montando desde ontem, e dá pra entender: ela avisa logo de cara que esse disco não vai te poupar.
O Amor é o mais perto de grandioso que ele se permite aqui, com Marco Mazzola sentado na produção. Só que grandioso pra dentro, sabe? Cresce e não explode.
Aurora começa só com a voz dele, sem nada atrás, e depois entra uma batida meio funkeada. Prova de que ficar melancólico não obriga ninguém a abrir mão do suingue.
Por Você é das mais discretas do disco, e tem gente já dizendo que vai assumir namoro com ela. Não tenta roubar cena. Talvez por isso funcione.
Literatura é o primeiro choro coletivo. Eu perdi meu pai ano passado, então não vou fingir que ouvi essa música como crítico. Ouvi como filho, e tive que parar o álbum. O violão manda e o resto se ajeita em volta. E o que mais me pegou é que ela não é só sobre o pai do Jão: tem gente lembrando de avó, de avô, de perda própria. Quando uma música específica demais vira espelho de todo mundo, é porque acertou.
Eu Sempre Volto tem cordas arranjadas por Érica Silva e fala do vaivém da relação com Pedro Tófani sem maquiar a parte feia. Das mais bonitas que ele já assinou.
Jabuticabeira é a virada de chave do disco. Beat oitentista, sintetizador, e um final folk bem manso. Composta só por Jão. E tem uma leitura rolando de que quem canta não é o filho, é o pai, tentando convencer o menino de que tá tudo bem. Não é oficial, mas depois que você ouve assim, não desouve mais.
João inverte a câmera de vez: quem escreveu foi Pedro Tófani, sozinho. Ou seja, Jão canta a si mesmo pela boca do namorado, e ainda vai buscar os agudos lá em cima. Saber disso muda a música inteira.
Tudo Me Lembra traz São Paulo pra dentro da história. Insegurança, expectativa, e aquela mania que a cidade tem de guardar memória por você.
Coincidências é legalzinha e nada além disso. É um mid-tempo que vai crescendo, e puxa muito pra “The Subway”, da Chappell Roan, naquele esquema de começar contida e ir abrindo devagar. O problema é que ela nunca chega no tamanho que promete. Não é à toa que é a que mais aparece no fim das listas de quem já ouviu o disco inteiro.
O Arquiteto faz exatamente o que “Coincidências” tentou fazer. Começa pequena e termina no auge, e pra mim é o clímax da segunda metade. Composição e produção dele sozinho, sem mais ninguém na sala. Tá destruindo gente por aí com razão.
Curioso é onde a guitarra assume o comando. Na audição no Anhangabaú teve um momento coletivo justo quando ela entra, e ouvindo o álbum todo dá pra entender: depois de tanto violão, Jão botando peso de volta é um alívio quase físico.
Passeios Noturnos puxa de volta o clima oitentista de “Jabuticabeira” e reacende o disco na hora certa.
Memórias Póstumas é o soco. No finalzinho da faixa-título entra um áudio do pai dele falando dele, elogiando o filho. Não vou estragar. Só saiba que ninguém tá conseguindo passar por essa faixa inteiro.
Ele empilhou balada demais no meio, e isso é verdade. Mas é pouca coisa perto do que ele fez aqui: largou fórmula, largou feat, largou single de rádio e falou baixinho sobre a coisa mais difícil que já viveu. Dez anos depois de “Dança pra Mim”, esse é o Jão mais verdadeiro que a gente já ouviu. E você, conseguiu chegar até o fim ou travou em “Literatura” igual todo mundo?
