Confessions II prova que Madonna nunca saiu da Danceteria

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Sequência de disco clássico costuma ser armadilha. A gente sabe como isso termina: o artista revisita o próprio auge, a comparação esmaga, todo mundo finge que não viu. Pois ninguém avisou Madonna. Confessions II chegou sexta (3) pela Warner, de novo com Stuart Price, de novo mixado como um DJ set: 16 faixas emendadas em 63 minutos sem pausa. Dessa vez, porém, ela troca de espelho: em vez de revisitar o próprio repertório de 2005, vai buscar a house de Detroit e Chicago, o som que tocava quando ela ainda era só mais uma garota dançando na Danceteria.

E a real é que funciona. Não como nostalgia requentada, como continuação de conversa. Vamo por partes.

I Feel So Free. A abertura sampleia o “French Kiss” do Lil Louis e resume o projeto inteiro em cinco minutos: liberdade como tese, pista como método. Não à toa virou o primeiro número um dela numa parada de rádio da Billboard em 18 anos. Gruda e liberta ao mesmo tempo.

Good For The Soul. Tem o DNA de Ray of Light correndo por baixo de um arpejo à Moroder, e ganha outro peso quando você lembra que essa senhora quase morreu em 2023. Dança como quem agradece.

One Step Away. Pra mim, a melhor do lote. Carrega o manifesto do disco (“a pista é um espaço ritualístico”) e ainda assim é puro destaque, o tipo de faixa que faz você apertar replay sem pensar duas vezes.

Bring Your Love. O dueto house com a princesinha do pop Sabrina Carpenter sampleia “Good Life” do Inner City e devolveu Madonna ao top 40 britânico. As duas se divertem, e o recado (“I know where the bodies are buried”) é petulante do jeito certo.

Danceteria. O grande hit do álbum, e não é à toa. Ela volta ao clube onde tudo começou e solta nomes como fazia em “Vogue”: Basquiat, Keith Haring, Nile Rodgers, até Debi Mazar operando o elevador. “Everyone here is a work of art” é o verso que resume por que esse registro existe.

Read My Lips. O colombiano Feid chega com violão e urgência num dueto bilíngue sobre amor acabado. Ela fecha mandando “Shut your mouth”, mas fora o atrevimento, é candidata a pulo no play contínuo.

Everything. O coração emocional da primeira metade. Quando parece que o set é só festa, ela abre o peito.

Love Sensation. A gente já conhecia o single, e dentro do mix ele faz ainda mais sentido: é a síntese perfeita da parceria com Price, aquele indie disco que te transporta pra 2008.

Love Without Words. Não pede sua atenção, pede seu corpo. No fone passa quase batida, na pista deve ser outra história. Respiro necessário no meio do set.

Bizarre. A parceria com Martin Garrix é a curva mais EDM do trabalho, e funciona: ideia e produção coladas do jeito certo. A letra rende ainda mais, difícil não especular sobre quem é o astro de cinema do Shelby Cobra.

School. A faixa que vai dividir a mesa do bar. Tem o lado Erotica dela, safada e barulhenta, citando até Picasso. Uns vão achar bagunça, eu achei bagunça boa.

Fragile. Aqui começa o fim da balada, aquele momento em que parte da galera já tá de olho no fumódromo. A homenagem ao irmão Christopher, que se foi em 2024, chega sobre uma base de rave balada. A intenção emociona mais que a melodia, que não sobe onde precisava. Ainda assim, “energy never dies” no meio de um set de dança diz muito sobre como ela processa luto: dançando.

My Sins Are My Savior. Stromae desliza por cima de um groove nervoso e o resultado lembra “Bedtime Story”, aquele lado experimental que ela visita quando confia no parceiro. Cresce a cada escuta.

Betrayal. Trip-hop com trompete, clima Massive Attack, e um verso que corta: “You’ll never take my mother’s place”. A ferida mais antiga dela continua aberta, e rende uma das melhores letras do disco.

The Test. O dueto com a filha Lola Leon é a primeira vez das duas juntas num estúdio, e é basicamente um pedido de desculpas em forma de canção de ninar trip-hop. “My butterfly was always being watched” dói de um jeito bom. Lola segura a própria ponta, diga-se.

L.E.S. Girl. O encerramento volta pro Lower East Side dos anos 80, pro guitarrista de cara de Marlon Brando na St. Marks Place, e desliga a luz da pista com “everything fades away”. Fechamento de quem sabe que a festa acaba, e por isso mesmo dança até o fim.

No fim das contas, Confessions II supera sim o original. Tem clima de disco de despedida, o tipo de álbum que soa como último capítulo, mas o que ele prova é que aos 67 ela ainda escreve, ainda edita, ainda entende de pista melhor que gente com um terço da idade dela. Se for mesmo uma despedida, que seja lida como auge, e que a pista continue aberta pra ela por muito mais tempo. É o melhor trabalho dela em 20 anos, sim, e dessa vez a crítica inteira concorda comigo. Bota pra tocar do início ao fim, sem pular, que é assim que ele foi feito. E aí, você que tava no meio do 1,6 milhão em Copacabana: será que essa nova era passa pelo Brasil?

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